domingo, 19 de julho de 2009

A POÉTICA DE ARISTÓTELES

REFERÊNCIA: DA COSTA, Lígia Militz. A poética de Aristóteles: mímese e verossimilhança. São Paulo: Ática, 1992.

INTRODUÇÃO
A mimese, atividade imitativa, foi depreciada pelo filósofo Platão por se distanciar da realidade. A teoria do belo desenvolvida por ele considerava que a arte deveria estar ligada ao caráter ontológico de valores metafísicos e empenhativos, com origem divina e misteriosa. Porém, para o filósofo, a arte em geral não visava a essência das coisas, como deveria ser, mas apenas a imitação das imitações, distanciando-se muito da busca da realidade.
Aristóteles desenvolve uma percepção estética da arte na medida em que valoriza a atividade imitativa por sua autonomia face à verdade preestabelecida. A arte é para ele uma possibilidade de obter possíveis interpretações da realidade, surgindo daí a ideia de verossimilhança, essencial ao caráter imitativo da arte. Em sua Poética, Aristóteles estabelece conceitos como mimese, mito e catarse, definindo sua concepção sobre arte. Tal tratado se limita ao estudo da tragédia e da epopéia, mas não nega a existência de outras formas poéticas, como o faz ao citar a comédia, o ditirambo, aulética e citarística.
REVISÃO COMENTADA DA POÉTICA
A Poética pode ser seccionada em sete tópicos, conforme segue:
Abertura do texto (capítulo I, § 1 e 2)
Propõe-se a estudar a poesia e suas espécies como arte mimética, através do método de classificação do naturalista, iniciando pelas noções elementares.

Critérios distintivos da mimese (capítulo I, § 3 ao capítulo III)
Explicita quais os meios e os modos pelo qual se dá a representação que tem por objeto uma ação. A mimese só ocorre quando a ação humana é representada de forma melhor (tragédia e epopeia) ou pior (comédia) que a realidade demonstra. Os meios da arte poética são o ritmo, o metro (harmonia) e a linguagem (canto), os modos podem ser narrado ou dramático. O que difere um poeta não é o meio que se utiliza para representar, mas o objeto de sua representação.

A poesia e suas espécies (capítulo IV e V)
O surgimento da poesia, segundo Aristóteles, se deu devido a uma tendência natural humana do prazer em imitar e para a melodia e ao ritmo.
Com relação à imitação o homem possui prazer tanto em imitar como em receber, contemplar tais imitações. A afinidade com a representação ocorre pela disposição do homem ao conhecimento proporcionado por tal atividade abstrata que eleva o homem do particular para o geral. É um prazer intelectual e de reconhecimento, ao associar a forma imitada com a forma natural.
O homem desenvolve a poesia por sua disposição em ritmar e melodiar. Nesse desenvolvimento uns decidem imitar más ações, outros boas ações. Na antiguidade grega, estas eram as epopéias e aquelas correspondiam ao metro jâmbico. Da tendência de imitar más ações desenvolve-se posteriormente a comédia, de imitar boas ações desenvolve-se a tragédia. Tais são os gêneros existentes para Aristóteles. A tragédia possui seu desenvolvimento ligado a Ésquilo e Sófocles, sendo a forma acabada da poesia, sua forma natural. A comédia, desprestigiada, não possui registros históricos da tradição.
A epopéia e a tragédia são semelhantes. Imitam o mesmo objeto com o mesmo meio (verso). Porém, podem ser diferenciadas, pois a epopeia se utiliza apenas do verso e a tragédia do verso e do canto. Além disso, há a diferença do modo de representação e duração. A epopéia é uma narrativa (primeira pessoa) de duração ilimitada, é um poema longo; já a tragédia é um drama, narrado pelos próprios personagens que a contém, de ação limitada, poema curto.

Teoria da tragédia ( capítulo VI a XXII)
Grande parte da poética é dedicada ao estudo da tragédia, considerada por Aristóteles como a arte mimética por excelência. Segundo o filósofo a tragédia é superior a epopéia, pois possui todas as partes da epopéia e ainda algumas exclusivas e também “por submeter-se a epopéia aos critérios de valor próprios do gênero trágico.” ( DA COSTA, 1992, p. 18).
A tragédia é uma representação das ações humanas de caráter elevado, expressa por uma linguagem ornamentada, através do diálogo e do espetáculo cênico, visando à purificação das emoções (efeito catártico). A tragédia possui seis partes qualitativas:
Objeto da representação
Mito (fábula, composição das ações): parte mais importante, pois arranja sistematicamente as ações. Formado pela peripécia e o reconhecimento
Caráter (qualidade moral): caracteres dos personagens, manifestação de decisão, é apenas conseqüência das ações; há a superioridade da ação sobre o estado na filosofia aristotélica.
Pensamento (elemento lógico): capacidade de dizer o que é inerente a um assunto e o que convém

Meio
Elocução (falas, expressão): enunciado dos pensamentos por meio de palavras (pode ser em prosa ou em verso)
Melopéia (canto coral): são os cantares, principal ornamento

Modo
Espetáculo: é a organização teatral, mais emocionante dos elementos, porém o menos artístico e mais distante e estranho à poesia.

O mito configura-se como o elemento mais importante da tragédia, por isso Aristóteles dedica a ele um estudo minucioso. O mito é caracterizado por se constituir de uma ação una e com extensão delimitada, apenas com os dois elementos bem definidos pode-se ter uma mito belo. Uma ação una é aquela que possui uma construção de começo, meio e fim segundo os critérios de necessidade e probabilidade, já a extensão do mito deve ser aquela que a memória possa reter. Observe-se que extensão e ordenação são características que dependem da percepção do espectador, não depende, por exemplo, de haver um único herói na trama.
O mito é caracterizado por um conjunto de ações escolhidas e organizadas de acordo com uma ordem necessária e possível. Sua construção se remete a algo que poderia acontecer e não ao que aconteceu. É da ordem do verossímil. Difere da postura do historiador que relata fatos que realmente aconteceram, se preocupando em demonstrar verdades de fatos particulares. A poesia traz verdades universais ou gerais devido ao encadeamento causal que estrutura a ação segundo às exigências do espírito (necessário) ou à expectativa comum de todos os espíritos (verossímil).
O mito pode ser classificado, quanto à qualidade, em episódicos (os episódios não possuem relação nem necessária nem verossímil, são os piores mitos) e com efeito de surpresa (as emoções são causadas por fatos inesperados); quanto às espécies, em simples (mudança de sorte sem peripécia e/ou reconhecimento) e complexo (mudança de sorte com peripécia e/ou reconhecimento). Possui partes definidas em:
Peripécia: mutação de ações em sentido contrário
Reconhecimento: passagem de não-conhecimento ao conhecimento
Catástrofe: ação representada que produz destruição ou dor.
A tragédia é constituída por prólogo, episódio, êxodo, canto coral (divido em párodo e estásimo). Tais elementos estão no capítulo XII, que por não ter continuação lógica com os demais, é visto pelos estudiosos como inautêntico. Continuando a explanação sobre o mito, em especial o complexo, Aristóteles entende que este deve despertar o temor e a piedade por meio de peripécias e reconhecimentos. Estas devem ser compostas de heróis intermediários (nem bons nem maus), de final simples, ou seja, concluir apenas com ação de desgraça e não com duas ações diferentes, deve passar da felicidade à infelicidade por um grave erro do herói (passagem do desconhecimento ao conhecimento).
O efeito catártico da tragédia deve decorrer da composição e não dos elementos cênicos. A palavra em sua função imitativa deve produzir sentimentos de piedade e temor. Para executar tal tarefa o poeta não deve se desprender da tradição, com as ações sucedendo-se nas alianças familiares, pois é nelas que tais sentimentos emanam com maior força. Além disso, as palavras e ações devem revelar um caráter que irá qualificar a tragédia, a partir das regras do verossímil e do necessário, logo, os desenlaces devem ocorrer em função do próprio mito e não do deus ex machina.
Aristóteles identifica cinco tipos de reconhecimento, colocando-os em ordem crescente de valor artístico: sinais (congênitos ou adquiridos), o forjado pelo poeta, devido a uma lembrança esclarecedora da memória, por silogismo (ou paralogismo) e a que decorre das próprias ações, essa a melhor forma de reconhecimento.
O filósofo também aponta algumas técnicas necessárias ao fazer poético como reproduzir gestos no texto, argumentar primeiramente num esboço depois introduzir os episódios. Estes devem ser breves nos dramas; nas epopeias são longos. A tragédia pode ser divida em enredo e desenlace. O primeiro está situado entre o início da trama até o momento de reviravolta (pode conter fatos internos e externos à trama), o segundo da reviravolta até o fim da trama. Vale ressaltar o fato de que Aristóteles considera o coro como um dos atores, na perspectiva de Sófocles.
Resta falar do pensamento e da elocução na tragédia. O pensamento é tudo que pode ser produzido pela linguagem. É estudado pela retórica e valoriza a função pragmática da língua. Esta deve provocar os efeitos do drama através das ações e não de explicações. Não cabe ao poeta ser especialista em linguagem, mas sim fazer uso correto da elocução poética, tendo uma linguagem clara e elevada com o uso, principalmente, de metáforas.

A teoria da epopéia (capítulo XXII e XXIV)
A epopéia é uma imitação narrativa metrificada, possuindo as mesmas prescrições do gênero trágico, ou seja, deve em ser composta torno de uma ação inteira e completa, não se confundindo também com a narrativa histórica; possuir as mesmas partes da tragédia, com exceção da melopéia e do espetáculo; deve ter também as mesmas partes do mito (reconhecimento, peripécia e catástrofe); e pensamento e linguagem excelentes.
Algumas diferenças marcam a epopéia em relação à tragédia como a extensão e métrica. A extensão da epopéia é maior, pois pode relatar vários mitos na história simultaneamente o que torna a narrativa mais volumosa. A narrativa deve utilizar o metro heróico sem mistura-lo a outros metros. Além dessas diferenças, Aristóteles marca que a epopéia não possui exigência rigorosa com a verossimilhança, pois pode ser irracional, se utilizar de paralogismo e do elemento maravilhoso com maior liberdade já que não será representada numa cena com atores. Homero é destacado como o poeta que mais seguiu tais elementos da epopéia.

A poesia e a verossimilhança (capítulo XXV)
Aristóteles vincula a mimese a um referente exterior, não exclusivo do poeta, pois a imitação das coisas ocorre em relação às coisas como elas são ou foram, como dizem que são ou parecem ser ou como deveriam ser. Nesse sentido o erro na mimese só ocorre numa ordem poética, quando o poeta resolve apresentar um ser original e não o imita corretamente por incapacidade; e numa ordem acidental que não é intrínseco à poesia, quando o poeta erra na concepção do original, ou se engana ao falar de uma arte particular, ou cria coisas impossíveis.
Tais erros podem aparecer na poesia se o fim desta foi alcançado com êxito. Aristóteles fala ser desculpável o erro do poeta, se ele atingiu melhor, com a representação do impossível, a finalidade própria da arte, pois a mimese não se circunscreve ao verdadeiro, mas ao possível, ou seja, às visões existentes em relação ao objeto-modelo. As críticas à poesia podem se resumir em representações impossíveis, irracionais, imorais, contraditórias ou afastadas das regras da arte.
Aristóteles afirma ainda mais uma vez a superioridade da tragédia em relação à epopéia, por mais que possa não parecer, devido ao público vulgar da tragédia e os exageros da encenação e do espetáculo. A tragédia possui todos os elementos da epopéia e mais outros, a melopéia e o espetáculo. Além disso, a tragédia alcança os objetivos da arte numa extensão menor, sendo mais uma que a epopéia, rica em narrativas diversas em sua composição.

A MIMESE E A VEROSSIMILHANÇA NA POÉTICA
Ligia Militz aponta algumas conclusões que se pode chegar a partir da descrição de mimese e verossimilhança feita por Aristóteles. A mimese é imitação da realidade, mas não uma reprodução. Para tal atividade, devem-se seguir determinadas regras para se alcançar efeitos preestabelecidos. A principal regra é estruturação da representação em torno do mito, ou seja, da ação. Esta é o objeto da representação que deve seguir sempre os critérios da verossimilhança.
“A verossimilhança situa a mimese nas fronteiras ilimitadas do ‘possível’” (DA COSTA, 1992, p. 53). O possível é o objeto das representações e se configura naquilo que é necessário, lógico, causal dentro da organização do mito. A verossimilhança possui um desdobramento externo e interno, pois as ações do mito devem possuir uma relação de lógica e necessidade com as referências exteriores de tempo e espaço e também na sua disposição estrutural do material verbal. Esta é a mais importante na criação literária. Enfim na atividade de mimese tudo pode ser verossímil desde que alcance com êxito os objetivos da criação poética.

A PERMANÊNCIA DO CONCEITO DE MIMESE NA TEORIA DA LITERATURA CONTEMPORÂNEA
Busca-se a atualidade do conceito de mimese no desenvolvimento da teoria da literatura, principalmente no que se refere ao seu princípio de organização interna da obra (verossimilhança interna de uma obra).
Mímese e linguística estrutural
Na seara do estruturalismo há a importante reformulação da concepção de mímese aristotélica em José Guilherme Merquior. Este teórico apresenta uma poética da lírica, ao aplicar as bases teóricas de Aristóteles no texto lírico. Para ele a literatura moderna é uma reiteração das concepções de mimese desenvolvidas por Aristóteles e o gênero lírico não deixa de ser mimético, pois imita os estados de ânimo. Porém a mimese lírica não se restringe aos fatores externos da realidade, ela possui uma mimese interna, com a imitação das palavras, ou seja, “o espelhamento paradigmático das palavras entre si, no interior lingüístico do poema” (DA COSTA, 1992, p. 59). Sua teoria se baseia no pensamento de Jakobson da estruturação lingüística, especialmente no princípio da função poética da linguagem.

Mímese e representação social
Luiz Costa Lima desenvolve a percepção de mimeses Aristotélica para descrever a experiência estética que se encontra ausente nas produções modernas. Para esse autor, para a mimese ocorrer não é necessário apenas uma organização interna do texto necessária à recepção do mesmo pelo leitor mas também necessita-se da socialização das representações. Isso só ocorre na medida em que a inserção em grupo social ocorre mediante ao acesso a uma rede de símbolos, que se chama representação. Assim o escritor possui significados que querem ser transmitidos por significantes e o leitor possui apenas este material para a realização estética, que consistirá na atribuição de significados pelo leitor aos significantes organizados pelo escritor.
Porém tal processo de diferenciação social entre as pessoas através da literatura não tem ocorrido na modernidade devido o capitalismo impedir a formação de canais simbólicos que permitam ao individuo identificar-se com o grupo a que pertence. A linguagem de representação consegue diferenciar os indivíduos através dos contextos sociais diferenciados que se manifestam na atribuição de sentido. Luiz Costa Lima considera essencial à mimese que haja um circuito entre texto e sua suplementação pelo leitor e para tal ocorrer a organização estrutural interna é essencial, assim como defendeu Aristóteles ao considerar a verossimilhança interna mais importante à poética.

Mímese e Hermenêutica
Paul Ricouer, na linha teórica da hermenêutica, atualiza os conceitos trabalhados por Aristóteles na analise do fenômeno literário. Considera a mimese mais do que um processo imitativo e a entende como uma produção de uma coisa singular, pois é a composição e a construção que produzem o objeto que representam, numa relação paradoxal. Dessa mesma forma ocorre com a metáfora, segundo esse teórico, pois ela conserva a proximidade com a realidade humana e a distância fabulosa.
Ricouer quer esclarecer a metáfora como processo de construção com a linguagem através da percepção mimética de Aristóteles. Para ele a metáfora possui essa dupla função da mimese que também pode ser observada na sua finalidade de catarse: submissão à realidade/invenção e restituição/sobrelevação. Sua teoria da metáfora expande a teoria da mimese na atualidade, pois a mimese passa a ser correlata da metáfora.
Nesse sentido ele também traça uma relação entre a narrativa e seu tempo com a atividade mimética Aristotélica, centrada na ação. Para o francês, a organização da ação (verossimilhança) é importante na narrativa, pois ela é atemporal, desligada da realidade representada, devendo possuir uma lógica própria. Tal construção ocorre através de três momentos da mimese: pré-compreensão do agir humano (verossimilhança externa), ação de compor a intriga (verossimilhança interna) e a operação de avaliação pelo receptor.

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